O fortalecimento da atuação integrada entre saúde, educação e assistência social foi o eixo central do VI Seminário Integrador do Programa Saúde na Escola (PSE), realizado nesta terça-feira, 3, no auditório central da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc). O evento reuniu profissionais de diferentes áreas, gestores, estudantes e representantes de instituições parceiras, consolidando-se como um espaço estratégico de diálogo e alinhamento das ações desenvolvidas no município.
Com o tema “Saúde Mental no Contexto Escolar: Diálogos, Desafios e Práticas em Rede”, a iniciativa destacou a importância de uma abordagem articulada para dar conta da complexidade das demandas que emergem no ambiente escolar. Atualmente, escolas e serviços públicos lidam com situações cada vez mais desafiadoras, que envolvem não apenas questões pedagógicas, mas também aspectos sociais, familiares e de saúde, muitas vezes com encaminhamentos para órgãos como Justiça e Ministério Público.
Ao longo da programação, foi reforçado que o trabalho isolado já não é suficiente para responder às demandas atuais. A integração entre equipes, o compartilhamento de informações e o alinhamento de estratégias são apontados como caminhos fundamentais para garantir um atendimento mais efetivo a crianças e adolescentes.
A coordenadora municipal do PSE na Secretaria Municipal de Saúde (Sesa), Denise Henriqson, destacou que quanto maior a articulação entre os serviços, melhores são os resultados alcançados. “O seminário cumpre justamente o papel de promover esse encontro entre os profissionais, permitindo a troca de experiências, o debate sobre dificuldades e a construção conjunta de soluções”, disse.
Além da solenidade de abertura, a programação contou com momentos de alinhamento das prioridades do programa para 2026, apresentações de experiências exitosas desenvolvidas nas escolas e uma mesa redonda no turno da tarde, reunindo representantes dos diferentes setores envolvidos no PSE. O evento reuniu participantes das 83 escolas da rede básica vinculadas ao programa no biênio 2025-2026, incluindo instituições públicas e privadas conveniadas, além de profissionais das unidades de saúde, assistência social e representantes de municípios da região.
A abertura do seminário contou com a presença do prefeito Sérgio Ivan Moraes, da secretária municipal de Saúde, Denise Graebner, do coordenador da 6ª Coordenadoria Regional de Educação, Luiz Ricardo Pinho de Moura, e da vice-reitora da Unisc, Andréia de Moura Valim. Também integraram a mesa, a coordenadora do PSE na Secretaria Municipal de Saúde, Denise Henriqson, a coordenadora do PSE na 13ª
Coordenadoria Regional de Saúde, Francisca Wichmann, a coordenadora do Cadastro Único da Secretaria de Desenvolvimento Social e Inclusão, Luci Rodrigues, e o diretor de Educação da Secretaria Municipal de Educação, Fernando Wegner.
Saúde mental no centro do debate
Mais do que um encontro técnico, o VI Seminário Integrador do Programa Saúde na Escola (PSE) reafirmou a necessidade de diálogo permanente, escuta qualificada e construção coletiva, pilares essenciais para o fortalecimento das políticas públicas voltadas à infância e adolescência. E no centro das discussões esteve a saúde mental no ambiente escolar, com destaque para a palestra da enfermeira Fernanda Barreto Mielke, coordenadora do Programa TEAcolhe.
Ao abordar o tema, ela defendeu uma compreensão ampliada de saúde, que vai além da ausência de transtornos e envolve aspectos emocionais, comportamentais e relacionais. Nesse contexto, apontou a escola como um espaço estratégico para a identificação precoce de sinais de sofrimento psíquico, como isolamento, agressividade e queda no rendimento escolar e destacou o papel dos professores, como peças-chave no reconhecimento dessas mudanças e no encaminhamento adequado dentro da rede de proteção.
Fernanda também chamou atenção para os impactos da vida contemporânea no desenvolvimento de crianças e adolescentes, com rotinas aceleradas, sobrecarga emocional e redução do tempo de convivência familiar. “Não existe relação sem presença”, afirmou, ao enfatizar a importância do vínculo e do acompanhamento próximo.
Outro ponto abordado pela profissional foi a crescente medicalização da infância. Segundo ela, o uso de medicamentos não pode ser a resposta imediata para questões complexas, sendo necessário diferenciar sofrimento psíquico de transtornos e considerar as etapas do desenvolvimento infantil. Fernanda reforçou a importância da escuta qualificada, do acolhimento e da construção de vínculos, além do desenvolvimento de habilidades socioemocionais como estratégias fundamentais para enfrentar os desafios da saúde mental no contexto escolar.
Festa das Cores leva protagonismo jovem ao palco e emociona público
A Mostra de Experiências do VI Seminário do Programa Saúde na Escola foi marcada por um dos momentos mais impactantes da programação: a apresentação do projeto Festa das Cores: Um caminho que ultrapassa os muros da escola, desenvolvido na Emef Bom Jesus. Com forte protagonismo juvenil, cerca de 20 crianças e adolescentes — conhecidos como “Filhos de Gandhi do Bom Jesus” — entraram no auditório vestindo faixas e turbantes brancos, ao som de instrumentos tradicionais da cultura africana, como afoxés, agogôs e claves.
A apresentação, sob regência do professor Maiquel Silva, iniciou com ritmos inspirados no olodum, seguiu com o maracatu de Pernambuco — reconhecido por sua complexa polirritmia — e encerrou com o baião, imortalizado por Luiz Gonzaga, interpretando Asa Branca, uma das músicas brasileiras mais conhecidas internacionalmente.
Mais do que uma apresentação artística, o momento traduziu a essência do projeto, criado em 2022, a partir de reflexões provocadas pelo assassinato de George Floyd, nos Estados Unidos. A iniciativa parte de um princípio central: onde existe racismo, não há saúde mental. Após a performance, professoras e estudantes compartilharam a trajetória do projeto, que busca promover uma educação antirracista, estimulando a reflexão crítica e valorizando a identidade negra por meio de práticas pedagógicas transformadoras no contexto da escola pública.
Em 2024, a iniciativa foi oficialmente batizada como Festa das Cores, passando a integrar e orientar diversas ações desenvolvidas na escola. Depoimentos de alunos e professores, apresentados no palco, emocionaram o público ao evidenciar o impacto do projeto na vida dos estudantes e na construção de vínculos mais saudáveis no ambiente escolar.
Durante a apresentação, também foram citados dados de pesquisas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), indicando que mais de 45% dos jovens negros brasileiros apresentam sofrimento mental — realidade que, segundo os participantes, reforça a urgência de políticas e práticas educativas comprometidas com o enfrentamento ao racismo.
Foto: Diego Sampaio
